Nada mais curioso que o jeito de escrever dentro da academia.
Calma, não tô falando de academia de ginástica. Tô falando sobre a academia do conhecimento, a universidade. E como cria de uma universidade federal eu sei bem o que é escrita acadêmica: escrever em seis páginas o que você pode escrever melhor em duas (isso mesmo, melhor!).
Não tem como negar. Você sai do Ensino Médio achando que a coisa mais complicada que você vai escrever na vida é a sua redação socialmente engajada do ENEM. Coitado! Chega na universidade e uma criatura te solicita o rascunho da próxima obra prima da ciência!
Lembro até hoje da minha primeira avaliação na UFF. Fui todo iludido pra aula de Matrizes Clássicas naquele dia achando que ia fazer uma prova estilo as que eu tava acostumado a fazer no colégio há apenas quatro meses atrás. Sento com toda a minha dedicação na cadeira, ponho o lápis, a borracha, a caneta e os textos pra consulta sobre a mesa (outra hora vou escrever sobre como prova consulta na universidade também é ilusão), espero a professora distribuir as folhas de prova e... "OI? Como assim? Duas questões?". Sim, duas questões, mas um sutil aviso no fim da página dizia: mínimo de duas páginas pra cada uma. "Mínimo? É o mínimo?". Contei as linhas e deu 70 no total pra cada questão. Gritos e agonias mentais tomaram conta da minha cabeça. Eu sabia escrever no máximo 30 linhas, com introdução, desenvolvimento e conclusão, com proposta de intervenção que respeitasse os direitos humanos... Mas escrever duas páginas sobre a comédia e a tragédia gregas em relação a Ilíada e a Odisseia? Não!
O problema tava armado. Quando finalmente comecei a escrever vi que tudo que eu tinha pra dizer cabia em meia página. Ponderei escrever uma receita de miojo, mas lembrei que não era mais o ENEM. Era a vida real da universidade e eu tava nela. E, além do mais, com o mínimo de páginas estipuladas eu teria que escrever não só uma receita de miojo, mas uma de lasanha congelada, outra de pizza Sadia e a fórmula da Coca-Cola, se quisesse chegar ao pretendido (não recebi de nenhuma das empresas pra por o nome dos produtos aqui. Infelizmente!).
Mediante muito esforço eu consegui, faltando cinco minutos, escrever quatro páginas inteiras pra responder as tais duas questões. Foi aí que eu aprendi a coisa mais importante da vida de um universitário: ENROLAR!
CONTINUA.
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