Sim. Enrolar. Eis a chave pra uma escrita acadêmica de primeira.
Depois do ocorrido na prova de Matrizes Clássicas eu percebi que todo mundo enrolava. Os meus colegas veteranos, os monitores, os mestrandos, os doutorandos, os professores e, principalmente, os teóricos que a gente lia como se fossem os titãs da boa escrita. Mas enrolar na hora de escrever não é fácil, exige técnica elaborada e criatividade de roteiro nível filme indiano de baixo orçamento. Tudo que é simples ou inventado tem que parecer profundo ou complexo. Toda ideia tem que parecer a resposta certa pra todo o questionamento teórico feito na história da existência humana
Com o tempo, fui adquirindo os principais métodos acadêmico-enrolativos, e o primeiro é esse mesmo, criar adjetivos compostos de duas palavras que soam importantes. Logo já saí usando teórico-metodológico, linguístico-comunicativo, textual-intercomunicativo, tortético-de-chocolativo, guaranático-com-pizzativo, enrolético-escritivo... Tudo soa culto e de bom gosto, e pra designar, é óbvio, coisas toscas. Um cara que te perturba quando conversa com você não é chato. Ele é parturbativo-chatiativo-dialético.
Outra coisa importante é mencionar algum teórico, alguma pessoa que, como você, também citou outra, o que faz com que na universidade ninguém tenha pensamento próprio. Todo mundo é papagaio de alguém. Ter ideias originais é coisa de gente ignorante. Tudo é questão de prestígio. E na academia você ganha o mesmo prestígio de um jogador de futebol problemático e bem pago se souber citar alguém. Duas citações de autores diferentes podem te garantir uma foto numa caixa de ceral. Três te fazem ter um patrocínio com a Nike. No quarto autor citado você recebe a proposta de ir jogar na Espanha. No quinto você se aposenta aos 32 anos e colocam seu nome na quadra superfaturada de uma comunidade carente. Citação é a melhor jogada!
Ah, é bom ressaltar a boa e velha problematização. Essa história de problematizar rende no mínimo um bônus extra de quatro páginas inteiras. Cinco se você fizer bastante citação. Não importa o quão ridículo seja o tema ou quão irrelevante seja sua conclusão final, encarne o pensador contemporâneo e queime dois ou três neurônios refletindo sobre esse grande nada. Presenteie o mundo com os seus notáveis pensamentos que com certeza vão ter o potencial de fazer diferença no modo de vida dos seus personagens do The Sims 4. Nos anos 90 problematizar seria o must.
Não quero desanimar ninguém que vai entrar pra universidade. Aliás, quanto mais você souber disso, menos vai sofrer. Se você é vestibulando, não se acanhe. Pegue a caneta. Sente numa cadeira. Reflita. Escreva um artigo sobre a coxinha que você comeu na segunda passada e sobre como ela tava murchativa-oleosativa naquela estufa da cantina do seu colégio. Faça uma tese sobre o travamento da sua Netflix aos 12min45seg do sexto episódio da nona temporada de Friends.
Por último, faça uma relação louquíssima com aquela palestra que você "compareceu". Aquela mesma, que nem o palestrante queria estar, mas que todo mundo aplaudiu no final como se fosse mais um Oscar da Meryl Streep.
Seja acadêmico, Padawan!
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