Ah, o ENEM! Desespero que une os mais variados tipos de adolescentes em um só sentimento de fracasso iminente ou vitória retumbante.
Fiz o tal do exame duas vezes, uma no segundo ano do Ensino Médio, pra teste, outra no terceiro ano, pra valer. As duas foram particularmente horríveis entediantes cansativas.
ENEM já é cheio de regras e, se você é candidato e vai fazer a prova, vão te dar milhares de recomendações antes e depois da dita cuja. De repente todo mundo fica chato especialista no exame e quer te orientar como se você fosse protagonista do novo Karate Kid ou aspirante a Jedi. As recomendações vão desde as mais sem sentido possíveis até as mais complexas e, consequentemente, não absorvidas por aquela criatura que, em alguns meses, se tiver sorte, deixará o seu mundo de musical de baixo orçamento do Disney Channel (vulgo colégio) pra entrar num mundo híbrido de Lost e Caverna do Dragão (vulgo universidade).
Na hora da prova, então, uma série de impropérios acontecem com o único objetivo de te fazer se entregar. Se a vida fosse a TV aberta brasileira com sua incrível programação de qualidade pra toda a família, o candidato entraria na sala do ENEM achando que ia participar do Show do Milhão com o Silvio Santos, finalmente percebendo que na verdade estava na prova do líder do Big Brother dentro de um Kia compacto por 12hrs, sendo observado e com vontade de desistir (poesias chatas nível imagem de bom dia do WhatsApp declamadas pelo Pedro Bial inclusas).
O desespero aumenta quando começa o piquenique. Nunca na história da civilização ocidental se sentiu tanta fome em tão pouco tempo. O cardápio é variado e vai desde barrinha de cereal até, acreditem, marmita (SIIIM, igual aquela que você leva pro seu trabalho com a sobra da janta de ontem!). É nesse momento que a concorrência é derrubada por quem abrir o maior pacote de Ruffles emitindo "cracs"por longos minutos. A poesia do Pedro Bial O barulho que as pessoas fazem é um plus no seu quesito de raiva alheia. Pior é quando o barulho vem de fora da escola (e eu não vou comentar sobre o churrasco com pagode ao vivo e uma piscina de 1000 litros com 20 crianças dentro acontecendo bem do lado da sala que eu fiz a prova em 2012).
Quando assunto passa a ser o preenchimento da prova a coisa é quase como ativar algum tipo de dispositivo que abre um portal pra uma dimensão na qual o ENEM seria só uma atividade de recorte e cole de jornais e revistas. É nome pra escrever, é frase pra copiar... Sem falar no bendito cartão resposta com as suas bolinhas preenchidas completamente com caneta esferográfica preta fabricada em material transparente, e há sempre quem leve uma dúzia delas, caso as outras onze falhem, e o cara do camelô vendendo caneta na porta pelo preço de um Kit Kat.
E o que falar da redação? Amada e venerada redação! Rainha dos pesadelos e conquistadora das enxaquecas! Querer descobrir o tema da bendita é o número um do livro 1000 coisas desesperadoras pra se viver antes de morrer, sem edição em língua portuguesa ou em qualquer outro idioma. A tensão é grande, e tem sempre aqueles que acreditam com toda a alma que o tema vai ser o novo código florestal, que já é velho. E depois de escrever tudo seguindo as regras que o professor do cursinho ensinou durante 8 meses, incluindo aquela sua frase favorita pra iniciar a conclusão que nunca tem nada a ver com o que você disse no texto, é só torcer pelo critério de avaliação mais duvidoso do mundo.
No fim de tudo, vem a sua nota, que com certeza, eu disse COM CERTEZA, vai frustrar você. Pode ser uma nota boa? PODE! Mas é incrível como uma nota boa no ENEM nunca é o bom que a gente espera. Na verdade ela é ruim, mas se torna boa quando a gente descobre que todo mundo foi muito pior.
Pois bem, o ENEM agradece por ser a única melhor opção pra entrar naquela federal que vai atrasar sua formatura declarando greve todo ano (eu tô falando com você, UFF!).
Agora para de ler esse texto e vai estudar pro próximo ENEM!